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    Cassiterita do garimpo ilegal na Terra Yanomami abastece Departamento de Defesa dos EUA

    Investigações do MPF e da Polícia Federal revelam que o minério extraído ilegalmente em Roraima percorreu uma cadeia logística global, alcançando gigantes da tecnologia e contratos militares norte-americanos.

    FONTE: FOLHA BV25 de setembro de 2026
    Vista aérea de desmatamento causado pelo garimpo ilegal na Terra Yanomami, alvo de investigação por extração de cassiterita.
    Reprodução: Folha BV

    Conexão internacional: Da floresta em Roraima ao Pentágono

    Uma investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF) revelou que o garimpo ilegal na Terra Yanomami, em Roraima, não se limita a uma atividade criminosa local. O esquema, que envolve exploração de mão de obra análoga à escravidão e o domínio de facções criminosas, possui ramificações que chegam ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos (EUA). A rede de escoamento da cassiterita — minério do qual se extrai o estanho — conecta empresários influentes e multinacionais estratégicas.

    Nesta sexta-feira (25), novos detalhes sobre as ações judiciais em curso destacam como o minério extraído ilegalmente de territórios indígenas brasileiros foi inserido na cadeia de suprimentos de setores sensíveis da defesa norte-americana. O desdobramento ocorre após a análise de dados obtidos em operações recentes, como a Operação Disco de Ouro e a Operação Ouro Negro, que mapearam o fluxo financeiro e logístico do minério.

    O papel da mineradora White Solder e as exportações para os EUA

    Um dos pontos centrais da investigação é a mineradora brasileira White Solder, que se tornou ré na Justiça Federal. A suspeita é de que a companhia tenha fornecido estanho, oriundo do garimpo ilegal na Terra Yanomami, para empresas norte-americanas que mantêm contratos bilionários com o governo dos EUA. Entre maio de 2023 e agosto de 2025, a White Solder teria exportado pelo menos 525 toneladas de estanho para a Indium Corporation.

    A Indium Corporation é uma fornecedora direta de soldas para a Raytheon, uma das maiores empresas de tecnologia militar do mundo, responsável pela produção de sistemas de defesa aérea e mísseis para o Pentágono. Além disso, outra empresa americana, a Nathan Trotter, teria recebido cerca de 2,4 mil toneladas de estanho da mineradora brasileira entre 2021 e 2025. Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa dos EUA destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para expandir sua capacidade de fundição e refino, evidenciando o valor estratégico do material fornecido sob suspeita de ilegalidade.

    Gigantes da tecnologia e o rastro dos 'minerais de conflito'

    A investigação Polícia Federal Roraima também identificou que a White Solder consta como possível fornecedora em relatórios de 'minerais de conflito' submetidos à Securities and Exchange Commission (SEC) — a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA. Esses relatórios são obrigatórios para empresas que buscam garantir que suas matérias-primas não financiem abusos de direitos humanos ou atividades criminosas em áreas de preservação ou conflito.

    Entre as gigantes globais que listaram a mineradora em seus registros estão Amazon, Microsoft, Disney, Intel, NVIDIA, AMD, Rocket Lab e Sony. O uso da cassiterita é vital para a indústria de eletrônicos, sendo componente essencial em soldas de circuitos e componentes de hardware. A presença de minério ilegal nessas cadeias produtivas demonstra a dificuldade de rastreamento e a contaminação do mercado global por ativos extraídos de forma predatória em Roraima.

    Operação Disco de Ouro e a rede de influência no garimpo ilegal na Terra Yanomami

    O alcance das investigações também atinge figuras públicas e o setor artístico. A Operação Disco de Ouro, deflagrada pela Polícia Federal, conectou o cantor Alexandre Pires ao esquema de exploração mineral em Roraima. O artista é suspeito de envolvimento financeiro com a logística do garimpo de cassiterita. O caso ganhou repercussão devido ao histórico do cantor com o governo norte-americano, lembrando sua apresentação na Casa Branca em décadas anteriores.

    A complexidade do esquema revela que o financiamento do garimpo ilegal não provém apenas de pequenos infratores, mas de uma rede sofisticada que utiliza a lavagem de dinheiro para dar aparência de legalidade ao minério. Esse processo é facilitado pela 'contaminação' de órgãos públicos, conforme apontado pela Operação Ouro Negro, que investigou a emissão fraudulenta de licenças ambientais.

    Corrupção institucional e a Operação Ouro Negro na Femarh

    Para que o minério saísse da Terra Yanomami e chegasse ao mercado internacional, o esquema dependia da facilitação de documentos oficiais. Em setembro de 2025, a PF mirou funcionários da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) de Roraima. A investigação indicou que o órgão era utilizado para 'esquentar' a produção ilegal, emitindo licenças que permitiam o transporte e a venda da cassiterita como se fosse legalmente extraída.

    Essa fragilidade institucional é apontada por especialistas como um dos principais entraves para a erradicação do garimpo. Enquanto houver brechas no licenciamento ambiental e na fiscalização de fronteiras, o estanho extraído ilegalmente continuará a abastecer mercados externos, alimentando um ciclo de violência contra os povos indígenas e degradação ambiental severa na Amazônia.

    Impacto geopolítico e a fronteira com a Venezuela

    O cenário de exploração mineral em Roraima também possui um componente geopolítico. A proximidade com a Venezuela, país que enfrenta ocupações territoriais e tensões constantes, torna a Terra Yanomami uma região de alta sensibilidade para a segurança nacional. O interesse internacional, especialmente dos EUA, em garantir o suprimento de minerais estratégicos como o estanho, coloca o Brasil no centro de uma disputa por recursos naturais que vai além da preservação ambiental.

    As autoridades brasileiras agora buscam reforçar a cooperação internacional para barrar a entrada desses 'minerais de conflito' no mercado financeiro e industrial. O processo judicial contra a White Solder e os desdobramentos das operações policiais em Roraima seguem em tramitação na Justiça Federal, com potencial para redefinir as regras de conformidade para exportações minerais no Brasil.

    Fonte: Folha BV · publicado originalmente em 25/09/2026 às 09:35 (horário de Boa Vista).

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