Crise na ONU ameaça assistência a refugiados no Brasil
Com cortes de 10 mil postos de trabalho e redução drástica de repasses, a ONU enfrenta sua maior crise financeira, impactando diretamente o apoio a refugiados no Brasil.
Crise na ONU ameaça assistência a refugiados no Brasil
A Organização das Nações Unidas (ONU) atravessa um dos momentos mais críticos de sua história recente. Diante de um cenário de aperto financeiro severo e pressões políticas — com destaque para a postura dos Estados Unidos, que acumulam bilhões em atrasos de contribuições — a entidade iniciou um processo drástico de reestruturação que incluiu a eliminação de 10 mil empregos em pouco mais de um ano.
Para milhares de pessoas que buscam refúgio em países como o Brasil, a notícia acende um alerta vermelho. A interrupção ou redução de programas sociais, que historicamente garantiram acesso a cestas básicas, medicamentos e qualificação profissional, ameaça a sobrevivência de famílias vulneráveis que dependem de agências como o ACNUR e o Unicef.
Como a falta de recursos impacta a vida dos refugiados?
A história de Delmany Rodrigues, que chegou ao Brasil vindo de Angola em 1994, ilustra a importância desse suporte. Com o auxílio do ACNUR e da Cáritas, sua família conseguiu superar as barreiras do refúgio e ele pôde se formar, tornando-se hoje um empresário e fisioterapeuta. Contudo, essa trajetória de sucesso pode se tornar cada vez mais rara.
Segundo o porta-voz do Secretário-Geral da ONU, Stéphane Dujarric, a redução drástica das contribuições voluntárias — das quais os EUA eram os principais doadores, respondendo por quase 45% do orçamento humanitário — gerou consequências imediatas. Nos campos de refugiados, há relatos de cortes no fornecimento de alimentos, vacinas e material escolar.
Quais são os cortes previstos e o risco para o ACNUR?
O relatório do Conselho de Chefes Executivos da ONU aponta que, em 2025, o quadro de funcionários encolheu de 130 mil para pouco mais de 120 mil postos. O ACNUR, responsável por dar suporte a 130 milhões de pessoas globalmente, é um dos organismos mais atingidos. A agência arrecadou menos de 40% do que era necessário para operar em 2025, o que resultou no fechamento de escritórios em 15 países e na suspensão de serviços vitais em nações como Afeganistão, Etiópia e Síria.
Pressão política e o futuro do financiamento humanitário
Especialistas, como o analista Uriã Fancelli, classificam a postura de algumas potências mundiais como uma forma de "chantagem", utilizando o bloqueio financeiro como ferramenta de pressão política. Para o ano de 2026, a perspectiva é de que outros 2,9 mil cargos sejam extintos, enquanto o orçamento total da organização sofre uma queda constante, dificultando a manutenção de ações estruturais de desenvolvimento.
No Brasil, a preocupação é com a continuidade dos projetos que garantem a integração social dos refugiados. O suporte humanitário, que vai muito além da assistência imediata, funciona como uma ponte para a cidadania plena e a autonomia econômica. A redução desses recursos coloca em risco não apenas a ajuda emergencial, mas a capacidade da rede de proteção de transformar vidas como a de Delmany em histórias de superação.
Fonte: G1 · publicado originalmente em 10/10/2026 às 04:00 (horário de Boa Vista).
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