TECNOLOGIA

    Cultura do Google: livro expõe desorganização e retaliação

    Obra de Claire Stapleton, ex-Google, revela bastidores de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, abordando desde cargos inúteis até conflitos éticos.

    FONTE: C-LEVEL03 de outubro de 2026
    Ex-funcionária do Google, Claire Stapleton, discute em livro os desafios éticos e a cultura do Google no ambiente de trabalho.
    Reprodução: C-Level

    O lado B da cultura do Google

    Trabalhar em uma das empresas mais valiosas do mundo pode parecer o ápice da carreira para muitos profissionais, mas a realidade interna do Google revela facetas menos glamorosas. Em seu novo livro, cultura do Google, a ex-funcionária Claire Stapleton descreve um ambiente marcado por desorganização, burocracia ineficaz e episódios de retaliação que contradizem a imagem de inovação constante da companhia.

    Stapleton, que dedicou 12 anos de sua trajetória profissional à sede da empresa em Mountain View, detalha como a cultura do Google evoluiu de um ambiente criativo para um cenário onde a política interna e a manutenção de aparências superaram, muitas vezes, a entrega de resultados concretos.

    O que são os "bullshit jobs" nas empresas de tecnologia?

    Um dos pontos centrais da obra é a aplicação do conceito de "bullshit jobs" (empregos de merda), termo cunhado pelo antropólogo David Graeber. Segundo a autora, essa prática era comum em departamentos onde a produtividade era secundária diante da necessidade de ampliar a influência política dos gestores.

    Stapleton narra como foi alocada para projetos que, na prática, tinham pouco propósito real. Em um dos episódios, foi designada para desenvolver tutoriais pagos de tarefas que já estavam disponíveis gratuitamente no YouTube. Essa desorganização interna nas big techs, segundo ela, gerava uma sensação de frustração entre funcionários que buscavam impacto real, mas encontravam apenas processos automatizados ou redundantes.

    Retaliação e o impacto do protesto de 2018

    O ponto de virada na narrativa ocorre em 2018, após o escândalo envolvendo o pagamento de 90 milhões de dólares a Andy Rubin, criador do Android, após acusações de má conduta sexual. A resposta considerada insuficiente pela liderança do Google foi o estopim para a organização do "Google Walkout", um protesto que reuniu mais de 20 mil trabalhadores.

    Stapleton, que foi uma das organizadoras do movimento, relata que a retaliação corporativa em empresas de tecnologia tornou-se parte do seu cotidiano após o evento. A pressão e as mudanças na forma como era tratada pela gestão culminaram em sua saída da empresa em 2019. O livro serve como um alerta sobre a fragilidade dos direitos dos trabalhadores, mesmo em ambientes que se vendem como progressistas.

    Reflexões sobre a gestão de equipes em grandes empresas

    Para profissionais de recursos humanos e lideranças, o relato de Stapleton oferece uma visão crítica sobre como o gerenciamento tóxico em ambientes corporativos pode erodir a moral de equipes altamente qualificadas. O caso reforça a importância de canais de denúncia transparentes e de uma cultura que valorize mais a integridade ética do que a lealdade cega aos executivos.

    A obra, intitulada "Don’t Be Evil" (referência ao antigo lema da empresa), funciona tanto como um memorial quanto como um convite para que o mercado de trabalho reavalie suas prioridades, buscando um equilíbrio mais saudável entre produtividade e o bem-estar mental do colaborador.

    Fonte: C-Level · publicado originalmente em 02/10/2026 às 22:00 (horário de Boa Vista).

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