Eleições 2026: Candidatos do RJ usam mortes de operação como número de urna
Postulantes fluminenses utilizam a marca de 122 mortos na Operação Contenção para atrair o eleitorado, em movimento similar ao ocorrido após o massacre do Carandiru.
A corrida para as Eleições 2026 Rio de Janeiro ganha contornos de forte polêmica com a estratégia adotada por candidatos que buscam cargos no Legislativo. Policiais que estiveram à frente ou participaram diretamente da Operação Contenção, realizada em outubro de 2023 e considerada a ação policial mais letal da história do Brasil, estão utilizando o número total de mortos da operação como seu identificador nas urnas eletrônicas. O movimento, que conta com o apoio político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), repete um fenômeno observado na década de 1990, após o massacre do Carandiru.
O que foi a Operação Contenção no Rio de Janeiro?
A Operação Contenção, realizada no Complexo da Penha e em outras áreas da Zona Norte do Rio de Janeiro, resultou em 122 mortes, ultrapassando a marca de 111 vítimas do massacre na Casa de Detenção de São Paulo, em 1992. Entre os mortos na ação fluminense, estão incluídos tanto suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas quanto agentes de segurança pública. Nesta segunda-feira (28), a proximidade de um ano do ocorrido reacende o debate sobre a espetacularização da violência no cenário político.
Diferente de outras ações que geraram condenação internacional imediata, a Operação Contenção registrou uma aceitação significativa em setores da sociedade civil. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, citando dados do Datafolha coletados logo após a incursão, 57% dos moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro consideraram a ação um sucesso. Esse respaldo popular é o que impulsiona candidaturas que fazem da letalidade policial sua principal bandeira de campanha.
Repetição do fenômeno Carandiru nas Eleições 2026
A tática de transformar números de tragédias em ativos eleitorais não é inédita no Brasil. Nas eleições de 1994, as primeiras após o episódio do Carandiru, policiais envolvidos no massacre paulista também buscaram votos utilizando o número 111 (referência aos mortos na detenção). Agora, nas Eleições 2026 Rio de Janeiro, o número 122 surge como o novo símbolo dessa vertente política.
O ex-secretário de Polícia Civil, Felipe Curi (PP), candidato a deputado federal, e o Delegado Bernardo Leal (PP), que disputa uma vaga como deputado estadual, são os nomes de maior destaque que adotaram essa numeração. Curi era o chefe da Polícia Civil durante a operação e seu nome chegou a ser cogitado para disputar o Governo do Estado ou o Senado, dada a sua alta popularidade em pesquisas internas de partidos de direita e centro-direita.
Perfil dos candidatos policiais RJ e o apoio da família Bolsonaro
O Delegado Bernardo Leal tornou-se um símbolo da operação para o eleitorado conservador. Durante o confronto no Complexo da Penha contra o Comando Vermelho, Leal foi baleado, permanecendo 45 dias internado e sofrendo a amputação de uma das pernas. Sua campanha foca na superação pessoal e no combate rigoroso à criminalidade, alinhando-se ao discurso de Flávio Bolsonaro, que tem sido o principal articulador dessas candidaturas ligadas à segurança pública no Rio.
Felipe Curi, por sua vez, transitou da resistência inicial à política para uma candidatura robusta. Durante meses, ele utilizou plataformas como podcasts e entrevistas para detalhar os bastidores da Operação Contenção, construindo uma imagem de gestor técnico e operacional. Embora o PL tenha optado por Douglas Ruas para a disputa majoritária, Curi permanece como uma peça-chave na coligação do grupo político liderado pelos Bolsonaro no estado.
Estratégias eleitorais segurança pública e o impacto no eleitor
A utilização de dados de letalidade como ferramenta de marketing político levanta questões éticas e sociais. Para especialistas em segurança pública, a normalização desses números pode aprofundar a divisão social e dificultar a implementação de políticas de redução de danos e policiamento comunitário. Entretanto, para o eleitor médio fluminense, a sensação de insegurança constante muitas vezes sobrepõe as preocupações com direitos humanos, favorecendo candidatos que prometem "mão dura".
O cenário das Eleições 2026 Rio de Janeiro reflete uma tendência nacional de fortalecimento de bancadas temáticas, onde a "bancada da bala" busca ampliar sua influência não apenas na fiscalização, mas na formulação de leis penais mais rígidas. O uso do número 122 nas urnas é a materialização de uma plataforma política que vê na eliminação física do adversário — neste caso, o crime organizado — um mérito a ser recompensado pelo voto.
Para acompanhar o andamento das candidaturas e os prazos do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), os eleitores podem acessar o portal oficial do TSE para consultar a situação de cada postulante e as propostas registradas para o pleito de 2026.
Fonte: Folha de S.Paulo · publicado originalmente em 28/09/2026 às 11:30 (horário de Boa Vista).
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