MPF aciona Justiça por educação de 3,5 mil crianças Yanomami em Roraima
O Ministério Público Federal ingressou com ação civil pública exigindo a reestruturação do ensino para crianças e adultos na Terra Indígena Yanomami, onde a cobertura escolar é de apenas 14%.
Abandono escolar atinge milhares de indígenas em Alto Alegre
O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública na Justiça Federal pedindo a reestruturação urgente do sistema educacional para cerca de 3,5 mil crianças e adolescentes Yanomami em Roraima. A medida denuncia o colapso do atendimento escolar nas regiões de Surucucu, Parima, Xitei e Homoxi, localizadas no município de Alto Alegre, onde a ausência do Estado tem deixado jovens vulneráveis à cooptação pelo garimpo ilegal.
A ação, que inclui pedido de liminar, é baseada em depoimentos colhidos diretamente nas comunidades. Em visitas realizadas em dezembro de 2025, o MPF constatou que nenhuma das aldeias visitadas possuía escola em funcionamento. Além dos jovens em idade escolar, o órgão estima que mais de 3 mil adultos Yanomami nunca frequentaram a sala de aula, agravando os índices de exclusão social no estado.
Apenas 14% das crianças têm acesso à escola
Os dados levantados pelo procurador da República Alisson Marugal revelam um abismo estatístico na educação Yanomami em Roraima. Nos seis polos-base analisados, vivem 7.854 pessoas. Desse total, 3.446 estão na faixa etária de 4 a 17 anos, correspondente à educação básica obrigatória. No entanto, a rede estadual registra apenas 502 matrículas, concentradas em apenas duas unidades.
Isso significa que a cobertura escolar é de apenas 14,6% nas áreas atendidas, chegando a zero em regiões como Waputha, Aratha-u/Parima, Parafuri e Homoxi. Em Surucucu, um dos pontos mais críticos da Terra Indígena, dois em cada três estudantes estão fora da escola. Entre a população adulta, a situação é ainda mais grave: 3.247 pessoas não têm acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Analfabetismo recorde em Alto Alegre
O impacto dessa omissão reflete nos indicadores oficiais. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o município de Alto Alegre registrou a maior taxa de analfabetismo do país entre pessoas de 15 anos ou mais (36,8%). Quando o recorte foca apenas nos adultos indígenas, o índice salta para 64,4%, evidenciando a falha histórica das políticas públicas na região.
Escolas fantasmas e falta de merenda escolar
A precariedade não é apenas pela falta de prédios, mas pela inoperância das estruturas existentes. Dados da Secretaria de Estado da Educação e Desporto de Roraima (Seed/RR) indicavam a criação de 33 escolas Yanomami por decreto. Contudo, 12 delas estão paralisadas. As unidades que constam como ativas sofrem com a carência de profissionais: apenas 80 professores foram contratados para atender a demanda, e quase nenhuma escola possui merendeiras ou zeladores.
Em diligências realizadas em abril de 2025 e reforçadas por dados de 2026, o MPF identificou o que chamou de 'escolas fantasmas'. A unidade de Watatase, que aparecia nos registros oficiais como a maior em funcionamento, estava, na prática, inoperante, sem sede física ou aulas regulares. A falta de ensino impacta diretamente a segurança alimentar: sem escola, não há merenda. Atualmente, metade das crianças Yanomami apresenta déficit de peso, e uma em cada cinco sofre de desnutrição grave.
O avanço do garimpo sobre a juventude
Lideranças indígenas relatam que a ausência de escolas é um dos principais fatores que facilitam a entrada do garimpo ilegal. Sem perspectiva de estudo, jovens entre 15 e 18 anos acabam sendo cooptados pelos invasores. Relatos de profissionais de saúde indicam que 80% dos resgates de indígenas feridos na região envolvem jovens embriagados ou vítimas de conflitos armados ligados à lavra ilegal.
"Eu quero que os meninos estudem, para pararem de brigar e não aceitarem mais vender a terra", afirmou uma indígena da comunidade Watatase ao MPF. Professores contratados também denunciam a falta de apoio: muitos recebem salários, mas não possuem papel, lápis, lousa ou qualquer orientação pedagógica para trabalhar.
MPF exige criação de Grupo de Trabalho e plano integrado
A ação civil pública aponta uma sequência de omissões da União, do Governo de Roraima, da Funai e do município de Alto Alegre. O MPF requer que o caso seja tratado como um 'processo estrutural', exigindo a criação imediata de um Grupo de Trabalho (GT) para elaborar um plano integrado de atendimento.
Entre as exigências estão o diagnóstico completo da demanda escolar, a construção de sedes físicas, a contratação de transporte aéreo regular para envio de materiais e merenda, e a formação de professores indígenas. O objetivo é garantir que o direito à educação deixe de ser apenas um decreto no papel e se torne realidade nas aldeias da Serra Parima.
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Perguntas Frequentes
Por que o MPF entrou com a ação contra o Estado e a União?
O MPF identificou que 85% das crianças Yanomami estão fora da escola e que as poucas unidades existentes em Roraima estão inoperantes ou sem estrutura básica.
Quais são as regiões mais afetadas pela falta de escolas?
As regiões de Surucucu, Parima, Xitei e Homoxi, no município de Alto Alegre, são as que apresentam os piores indicadores de atendimento escolar.
Como a falta de escola afeta a saúde das crianças?
Sem escolas em funcionamento, as crianças perdem o acesso à merenda escolar, o que agrava o quadro de desnutrição, que já atinge metade dos jovens Yanomami.
O que o MPF pede na Justiça Federal?
A criação de um Grupo de Trabalho para elaborar um plano de reestruturação, construção de escolas, contratação de professores e garantia de transporte aéreo para insumos.
