POLÍTICA

    Religião na política: o risco da instrumentalização da fé nas eleições

    Artigo do sociólogo Demétrio Magnoli discute como a mistura entre fé e política ameaça a democracia e a laicidade do Estado no Brasil.

    FONTE: FOLHA DE S.PAULO02 de outubro de 2026
    Eleitor depositando voto em urna eletrônica, ilustrando a instrumentalização da religião na política brasileira.
    Reprodução: Folha de S.Paulo

    A proximidade das eleições no Brasil traz à tona um debate profundo sobre os limites entre a crença pessoal e a gestão pública. Em artigo recente publicado pela Folha de S.Paulo, o sociólogo e doutor em geografia humana pela USP, Demétrio Magnoli, levanta um alerta severo sobre o que define como a instrumentalização da religião na política brasileira. Segundo o autor, o cenário atual de polarização entre lulistas e bolsonaristas ameaça um dos pilares da democracia moderna: a laicidade do Estado.

    O perigo da instrumentalização da religião na política brasileira

    Para Magnoli, o dia do voto deveria pertencer ao cidadão e ao exercício da soberania popular, mas tem sido capturado por estratégias que utilizam a fé como ferramenta de manipulação. Ele argumenta que, independentemente do vencedor nas urnas, a democracia já sofre uma derrota quando líderes políticos decidem usar o sagrado para fins eleitorais. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas a velocidade com que se infiltra nas instituições nacionais preocupa especialistas e juristas.

    O autor recorda que, em décadas passadas, o mundo parecia caminhar para uma maior secularização. Exemplos como o Afeganistão antes do domínio talibã ou o Irã pré-revolução islâmica mostravam sociedades onde a religião não ditava as normas de conduta pública de forma impositiva. No entanto, o ressurgimento do ardor religioso no campo político — seja nos Estados Unidos, em Israel ou no Brasil — sinaliza um retrocesso em direção ao que ele chama de "abismo".

    Como a polarização utiliza a fé como estratégia eleitoral

    A análise de Magnoli aponta que a religião e eleições 2026 caminham para um embate onde o misticismo substitui o debate de projetos. Ele cita que o movimento começou de forma mais acentuada com o uso de sessões de oração em sedes de governo, sob a justificativa de "purificar" espaços públicos de supostas influências malignas. Essa postura, inicialmente associada ao bolsonarismo, agora parece ser espelhada por adversários políticos.

    De acordo com o texto, o grupo lulista estaria adotando táticas semelhantes para não perder espaço entre o eleitorado religioso. O uso de símbolos como imagens de santos e discursos carregados de referências bíblicas por parte de candidatos de esquerda é visto pelo sociólogo como um "jogo da infâmia", onde a verdade é sacrificada em nome da conquista do voto confessional. Essa polarização política no Brasil acaba por transformar o adversário em inimigo religioso, o que dificulta o diálogo democrático.

    Contexto histórico: as guerras de religião e o Estado Laico

    Para fundamentar o risco da mistura entre trono e altar, Magnoli recorre à história europeia. Ele menciona a guerra entre católicos e huguenotes na França, que durou 36 anos e dizimou cerca de 20% da população total do país na época. O fim desse conflito só foi possível com o Edito de Nantes, em 1598, que estabeleceu o princípio da tolerância religiosa.

    A laicidade do Estado brasileiro, portanto, não é apenas um conceito jurídico abstrato, mas uma proteção contra o derramamento de sangue e a perseguição. A separação entre o poder estatal e as denominações religiosas foi consolidada no Brasil ainda em 1890, logo após a Proclamação da República, e reforçada na Constituição de 1988.

    A Constituição de 1988 e a proteção da liberdade de crença

    A Carta Magna brasileira é clara ao estabelecer, em seu artigo 19, a proibição de que a União, os Estados e os Municípios estabeleçam cultos religiosos ou igrejas, os subvencionem ou mantenham com eles relações de dependência ou aliança. Simultaneamente, o artigo 5º garante o livre exercício de qualquer crença e a proteção aos locais de culto.

    O perigo da teocracia na política reside justamente na quebra dessa barreira. Quando um governante ou candidato alega agir em nome de Deus, ele automaticamente coloca aqueles que não compartilham da mesma fé — ou que interpretam a fé de forma diferente — na posição de párias sociais ou inimigos da nação. A laicidade, portanto, é a única garantia de que todas as religiões (e a ausência delas) possam coexistir em harmonia.

    O debate proposto por Magnoli serve como um convite à reflexão para o eleitor, especialmente em estados como Roraima, onde a influência de lideranças religiosas na política local é expressiva. Preservar o caráter público e laico das instituições é fundamental para assegurar que as políticas de saúde, educação e segurança sejam pautadas pela ciência e pelo direito comum, e não por dogmas específicos de um grupo em detrimento de outros.

    Para mais informações sobre os direitos do eleitor e a legislação eleitoral vigente, os cidadãos podem consultar o portal oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que oferece guias sobre condutas vedadas durante o período de campanha.

    Fonte: Folha de S.Paulo · publicado originalmente em 02/10/2026 às 09:22 (horário de Boa Vista).

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