POLÍTICA

    Suplentes de senador sem voto reacendem debate sobre herança da ditadura

    Baixa confiança no Congresso Nacional e a ascensão de suplentes de senador sem voto revelam lacunas no sistema democrático brasileiro, remetendo ao período militar.

    FONTE: FOLHA DE S.PAULO24 de setembro de 2026
    Plenário do Senado Federal em Brasília ilustra debate sobre suplentes de senador sem voto e herança da ditadura.
    Reprodução: Folha de S.Paulo

    Uma pesquisa recente divulgada nesta terça-feira (24), realizada pelo instituto Atlas em parceria com o jornal Estado de S. Paulo, trouxe à tona um dado alarmante sobre a percepção democrática no Brasil: apenas 8% da população confia no Congresso Nacional. O índice, que já costuma ser baixo em levantamentos históricos, reflete uma crise de representatividade que ganha contornos específicos quando analisada a composição do Senado Federal, especialmente no que diz respeito aos suplentes de senador sem voto.

    O Poder Legislativo vive um paradoxo fundamental. Embora seja o único dos três pilares da República cuja composição é integralmente definida pelo voto popular, ele amarga os piores índices de credibilidade. Especialistas apontam que, embora o eleitor escolha o titular da vaga, a figura do suplente permanece oculta durante o processo eleitoral, funcionando como uma espécie de "herança da ditadura no Senado" que ainda vigora na prática política brasileira.

    Quem são os suplentes de senador e como são escolhidos?

    No atual sistema eleitoral brasileiro Senado, cada candidato ao cargo de senador é eleito com dois suplentes. O problema central reside na forma como esses nomes são definidos. Diferente do que ocorre na Câmara dos Deputados, onde os suplentes são os próximos candidatos mais votados do partido ou coligação, no Senado os suplentes são escolhidos a dedo pelos titulares antes da eleição.

    Na prática, os "estepes" de luxo muitas vezes não passam por qualquer crivo de popularidade. É comum que as chapas sejam compostas por grandes financiadores de campanha, parentes próximos, amigos pessoais ou políticos que buscam uma sobrevida no poder sem enfrentar as urnas. Essa dinâmica afasta o representante do representado, criando um vácuo de legitimidade quando o titular se licencia para assumir ministérios, secretarias estaduais ou por motivos de saúde.

    A semelhança com os senadores biônicos da ditadura militar

    A crítica central a esse modelo é a comparação direta com o chamado "senador biônico". Criada em 1977 pelo regime militar através do Pacote de Abril, a figura do biônico permitia que uma parte do Senado fosse eleita indiretamente por colégios eleitorais controlados, garantindo a maioria do governo na época. Embora essa figura tenha sido formalmente extinta com a redemocratização, a permanência de suplentes sem voto é vista por analistas políticos como uma manutenção de privilégios daquele período.

    Em diversos momentos da história recente, quase metade do Senado chegou a ser ocupada por suplentes. Isso significa que estados inteiros foram representados por pessoas que nunca receberam um único voto direto para aquela função. Além de distorcer a vontade popular, essa prática enfraquece o federalismo, já que o suplente pode não ter o mesmo compromisso programático ou regional que o titular eleito apresentou durante a campanha.

    A realidade da representação política em Roraima

    Para o eleitorado local, entender a representação política em Roraima passa necessariamente por observar quem são os nomes que acompanham os candidatos ao Senado. Em estados com populações menores e forte dependência de recursos federais, o papel do senador é crucial para a articulação de emendas e projetos de infraestrutura. Quando um suplente assume, a dinâmica de poder pode mudar drasticamente, muitas vezes atendendo a interesses de grupos econômicos que financiaram a chapa, em detrimento das demandas sociais de Boa Vista e do interior do estado.

    A desatenção do eleitor com o suplente é um fenômeno nacional. Pesquisadores indicam que os nomes para o Senado são, geralmente, os últimos a serem definidos pelo eleitor no dia da votação. Se a atenção ao titular já é reduzida, a análise sobre quem ocupará a vaga em caso de vacância é praticamente inexistente, o que abre margem para as conveniências políticas que alimentam a baixa confiança no Congresso Nacional.

    É possível mudar o sistema atual?

    Tramitam no Congresso diversas propostas de emenda à Constituição (PECs) que visam alterar a regra da suplência. Algumas sugerem que o suplente seja o candidato a deputado mais votado do estado, enquanto outras propõem a realização de novas eleições caso o cargo fique vago com mais de dois anos de mandato restantes. No entanto, o avanço dessas reformas esbarra nos próprios parlamentares, que utilizam as vagas de suplente como moeda de troca em alianças partidárias.

    A solução para elevar o índice de 8% de confiança passa, obrigatoriamente, por uma reforma que devolva ao eleitor o controle total sobre quem senta nas cadeiras do Senado. Enquanto o modelo atual persistir, o senador biônico hoje continuará existindo sob o manto da legalidade, mas sob o questionamento da legitimidade democrática.

    Para o cidadão que deseja acompanhar de perto a atuação de seus representantes e verificar quem são os suplentes dos atuais senadores de seu estado, é possível consultar o sistema de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais (DivulgaCandContas) do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde os dados de toda a chapa eleita estão disponíveis de forma transparente.

    Fonte: Folha de S.Paulo · publicado originalmente em 24/09/2026 às 08:41 (horário de Boa Vista).

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